Pandemia

15 de dezembro de 2020

Pesquisadores apontam aumento de 107% nas mortes por covid nas favelas da Grande Rio

Crescimento ocorreu nos últimos cinco meses e a causa mais evidente é o fim da quarentena, que forçou a população a usar transportes coletivos

O número de óbitos por COVID-19 nas favelas da região metropolitana do Rio de Janeiro mais do que dobrou nos últimos cinco meses e os moradores estão sem atendimento médico adequado, já que 100% dos leitos de UTI reservados para COVID-19 estão ocupados. A denúncia foi feita durante a terceira coletiva do projeto Painel Unificador de Favelas do Rio de Janeiro, que monitora o avanço da doença em 228 comunidades com ajuda das lideranças locais. O Painel representa hoje 64,6% dos domicílios das favelas na cidade do Rio.

O número de mortes subiu de 1402 em agosto, para 2901 agora, em dezembro. “É a maior tragédia sanitária da história do Brasil e é com muita tristeza que a gente precisa avaliar esses dados”, disse Elisa Maria Campos, colaboradora do projeto e mestranda em Ciências Sociais no programa de Estudos Globais da Universidade de Freiburg, na Alemanha, depois de ressaltar que a COVID-19 já matou no Brasil, mais do que a bomba de Hiroshima, no Japão. “Hoje temos mais mortes nas favelas do Rio de Janeiro do que em 121 países inteiros”, continua, enquanto na tela, mostra a lista de países com menos mortes do que as favelas fluminenses.

Os pesquisadores do Painel afirmam que esse aumento aconteceu principalmente em virtude da retomada das atividades econômicas, que forçou a população a usar o transporte público. “A estratégia adotada foi reduzir os transportes durante a quarentena. Só que agora, com a volta das atividades, não houve a volta dos ônibus. Então são muitas pessoas aglomeradas em transportes reduzidos. Se antes tinha 4 ônibus circulando em uma hora da minha casa até a (favela da) Maré, hoje tem três ou dois e o número de pessoas é o mesmo. Fica todo mundo aglomerado”, contou Andressa Cabral Botelho, repórter do Maré de Notícias, publicação voltada para o Complexo da Maré e uma das lideranças que colabora com o projeto. Dados da Secretaria Estadual de Transportes da cidade informam que em junho, nos trens, metrô e barcas, a oferta reduziu-se em 50% e a demanda aumentou 70%.

Andressa aponta também a disparidade entre os dados da prefeitura e o levantado pelo Painel, com diferença de cerca de 1 mil casos. “A rede da Maré acompanha (a doença) desde março, por meio do painel “De olho no corona”. Fazemos levantamento nas 16 favelas que fazem parte do Complexo da Maré, com mapeamento de confirmados e suspeitos. Levanta quem são e onde estão”, explica. Os dados ficam publicados no banco de dados Painel dos Invisíveis. O número de contaminados no complexo, segundo esse levantamento, é de 2.449 moradores, com 158 mortes. O painel da Prefeitura registra 1078 casos na região.

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PAINEL UNIFICADOR traz os dados levantados por fontes locais qualificadas em 228 favelas 

Elisa explica que o contexto no interior das favelas impede a adoção das medidas de proteção contra a doença. “Não fazem parte da realidade da periferia e das comunidades. E ao mesmo tempo está acontecendo a volta das atividades presenciais, que força a utilização dos transportes”, diz. Ela cita dois estudos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), que apontam o transporte público como o maior vetor de transmissão do vírus.

A pesquisadora reclama das ações da Prefeitura, que segue às escuras, sem fazer testagem na população, com 100% das vagas de UTIs ocupadas, com dificuldades no levantamento de dados e na aplicação das verbas e consequentemente, sem políticas realistas em relação aos transportes públicos. O Painel Unificador de Favelas do Rio de Janeiro é um projeto da

MAIOR VETOR DE TRANSMISSÃO

Comunidades Catalisadoras (ComCat), uma ONG dedicada a dar apoio e sustentar iniciativas de melhora das condições de vida de comunidades periféricas no mundo inteiro. Na coletiva, além da denúncia da ausência total do Estado no enfrentamento da doença dentro das favelas, os pesquisadores divulgaram uma nota técnica em que explicam a metodologia utilizada, definidas em seus textos de divulgação como “altamente participativa”. Sem poder contar com a testagem em massa nesses territórios, considera mais precisas as informações oriundas de uma base local qualificada.

O Painel começou a montar sua base de dados em julho de 2020, tem recebido novas fontes semanalmente e recentemente, adotou uma metodologia de Zona de Influência de Códigos de Endereços Postais (CEPs) que melhor representam áreas de favela, começando pelas mais populosas. Conseguiram assim abranger 228 favelas até o início de dezembro, sendo seis em municípios vizinhos, em especial Itaguaí

NO YOUTUBE: Apresentação de Elisa Maria Campos, do Comunidades Catalisadoras e depoimento de Tânia Alexandre da Silva - Associação de Mulheres Edson Passos (AMEPA), Comunidade Cosmorama, município de Mesquita/RJ