Pandemia

23 de fevereiro de 2021

Brasil à beira do colapso

Inoperância do Estado na adoção de medidas de proteção e escolhas bolsonaristas permitem que o colapso na rede hospitalar registrado em Manaus no início do ano se espalhe pelo País

 O colapso no atendimento médico nas redes pública e privada está se espalhando pelo país, apesar da comoção provocada pela situação vivida em Manaus, na passagem do ano. Mesmo com UTIs e enfermarias lotadas e mortes crescendo em progressão geométrica, governadores e prefeitos evitam a todo custo adotar medidas de proteção, ou as tomam de maneira tardia e reticente, por pressão do empresariado local e também em muitos casos, por seguirem a trilha negacionista que marca as ações dos grupos bolsonaristas, muitos no comando das cidades.

 No último mês, quem acompanha os painéis de monitoramento do consórcio de imprensa nota uma mudança na relação entre o aumento (ou queda) de mortes e casos. Desde o início, essa relação tem se mantido mais ou menos igual, mas no último mês, as médias de mortes crescem enquanto a de casos diminui. Segundo o professor Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, essa mudança se deve ao fato de que nos últimos meses a doença vem se espalhando mais entre a população jovem, que então transmite aos idosos. “O número de infectados, que está descendo mas deve logo, logo subir, é por causa das festas de fim de ano”, explica.

 O Brasil registrou, até 27 de janeiro, 103 mortes por 100 mil habitantes, enquanto na Índia, essa relação é de 11 a cada 100 mil, ou nove vezes menor considerado o tamanho das duas populações. No macabro ranking de mortes por covid, o Brasil ocupa o segundo lugar, entre os Estados Unidos em primeiro e a Índia, em terceiro. No Rio de Janeiro a situação é ainda pior: até 27 de janeiro era de 251 mortes a cada 100 mil.

 Em Uberlândia, no triângulo mineiro, a rede chegou ao limite no domingo passado (21-02) e o Comitê Municipal de Enfrentamento ao Covid-19 tem orientado a população a procurar atendimento médico apenas se estiver em uma emergência, o que revoltou a intensivista Ludmila Rezende. Com o cansaço estampado no rosto, ela explica, em um vídeo publicado nas suas redes sociais (ao lado), que a decisão levará a mortes desnecessárias e conclui que “Deixar o paciente em casa, além de tudo é uma covardia”. Em matéria publicada no blog de Marcelo Auler, o jornalista Carlo Franco mostra como as decisões das autoridades locais, francamente bolsonaristas, construíram o cenário de terror que os moradores vivem hoje, apesar das mortes de muitos desse mesmo grupo e da comoção e aflição que toma conta da cidade. Franco aponta o raciocínio míope da gestão municipal, que agora, diante do caos, joga a culpa nos “manauaras”. Em live publicada depois do anúncio de colapso no atendimento médico da cidade, a primeira-dama do município e secretária de Governo e Comunicação, Ana Paula Junqueira, e o assessor técnico da rede de urgência e emergência

Ao lado, vídeo publicado pela intensivista Ludmila Rezende sobre a situação dos hospitais em Uberlândia. Abaixo, imagens publicadas nas mídias sociais denunciando aglomerações em festas irregulares reunidas em reportagem da Brasil de Fato, assinada por Lu Sudré

colapso 1.jpeg

da Secretaria de Saúde, de Uberlândia, Clauber Lourenço, insinuam que o aumento de casos é causado pela nova cepa, que chegou à cidade porque a vizinha Uberaba recebeu 18 pacientes de Manaus: “Ledo engano achar que ela (a nova cepa brasileira do coronavírus) não chegou aqui em Uberlândia. Nós estamos a 100 km de Uberaba. Já chegou. Explica a morte de pessoas tão jovens, que antes não tinham”, disse Lourenço. No dia 6 de janeiro, o município registrava 756 mortes e 44.461 pessoas contaminadas. Em seis semanas o número de mortes cresceu 27,7%, chegando a 966.

 Em Porto Alegre, o núcleo gaúcho da Associação Juízes para a Democracia (AJD) fez hoje (23-02) um pedido formal para que o governador Eduardo Leite (PSDB) adote o lockdown por pelo menos 15 dias em todo o Estado. O Rio Grande do Sul tem regiões que estão em nível altamente crítico (preto), mas mesmo assim não há lockdown. Na segunda-feira (22-02) a Prefeitura anunciou ocupação de 98,19% das vagas na rede hospitalar de Porto Alegre, a maior cidade do Estado.

 Hoje pela manhã, o prefeito de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, informou em entrevista à rádio CBN, o registro de mais de 500 mortes em um mês na cidade e que por isso, iria adotar medidas mais restritivas, mas ele apenas determinou um toque de recolher e sequer considerou o lockdown. Situações como essa são sinais de que estamos no início de um colapso em todo o Estado, o mais populoso do País. Várias cidades do Interior, como Araraquara, Botucatu, Jaú e toda a região de Campinas, já estão sem leitos de UTI e em Sorocaba

e Presidente Prudente, a lotação ultrapassa 90%. Apesar disso, o governo do Estado e as Prefeituras tem resistido ao lockdown, e adotam medidas pouco efetivas, como o toque de recolher, e mantém abertas escolas e comércio. Monitoramento da Associação Paulista de Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp) registra hoje 917 casos de contaminação nas escolas do Estado.

 O jornal O Estado de S. Paulo publicou uma matéria na última sexta-feira, assinada pelos repórteres Fabiana Cambricoli, José Maria Tomazela e Leonardo Augusto,  em que médicos, secretários municipais de saúde e pacientes de oito Estados ouvidos entre quarta e quinta-feira relatam “situação próxima do colapso, com 100% dos leitos ocupados, filas de espera por vagas de UTI e equipes correndo para antecipar altas e abrir espaço para doentes gravíssimos”. Os oito estados ouvidos pela reportagem são São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Pará, Mato Grosso do Sul e Ceará.

 Para Miguel Nicolelis, cientista e professor da Universidade de Duke (EUA) responsável por montar o comitê científico do Consórcio de nove Estados do Nordeste para enfrentamento da pandemia, “ou o país entra num lockdown nacional imediatamente, ou não daremos conta de enterrar os nossos mortos em 2021”. O cientista abandonou a coordenação Comitê na semana passada, segundo pessoas próximas, por ver que as orientações dadas não estavam sendo seguidas pelos governos.