Pandemia

14 de janeiro de 2021

Número de jornalistas mortos por COVID-19
no Brasil é o segundo maior do mundo

Número veio de levantamento feito por ONG ligada à ONU. Sindicato reclama da falta de informação e pede que jornalistas sejam incluídos na lista de prioritários para vacinação

FOTO:Divulgação, PEC

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 O presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP), Paulo Leite Moraes Zocchi, enviou essa semana um ofício ao governador do Estado, João Dória, solicitando a inclusão dos jornalistas que estão cobrindo a linha de frente da COVID-19 na lista de prioridade para vacinação, em virtude do risco que correm. Não existe no Brasil uma fonte que informe o número consolidado de contágio e mortes pela doença na categoria, que em dezembro era formada por 49,3 mil profissionais empregados segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o banco de dados do governo formado pelos registros de empregos com carteira assinada.

 No mesmo dia em que Paulo enviou o ofício, porém, a imprensa publicou os dados de um levantamento feito pela Press Emblem Campaign (PEC), organização não governamental (ONG) com status consultivo especial da ONU, em que o Brasil aparece com o segundo maior número de jornalistas mortos pela doença no mundo: 65 desde março, quando a pandemia começou, até ontem. O levantamento é feito em 59 países com ajuda de associações de jornalistas nacionais, mídia local e correspondentes da PEC, e soma um total de 630 jornalistas mortos pela doença. O primeiro da lista é o Peru, com 95 mortes, e o terceiro, a Índia, com 53 (veja box).

 O pedido de Paulo se justifica porque o mesmo levantamento indica uma tendência forte de aumento das mortes por aqui: do total registrado, 12 ocorreram em dezembro. É o maior aumento no mês entre os países pesquisados, o que provavelmente se repetirá agora, em janeiro: até o dia 5 de janeiro, o levantamento da PEC tinha registrado 602 mortes no mundo, 55 no Brasil. Isso significa que em menos de dez dias, das 28 mortes registradas, 10 aconteceram no Brasil.  

 

SUBNOTIFICAÇÃO

“É um número assustador”, diz Norian Segatto, jornalista, diretor da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e membro do Conselho Fiscal do SJSP, que aponta ainda a possibilidade de haver uma grande subnotificação. “Não temos sistematizado os casos de COVID na categoria, porque não temos como fazer esse acompanhamento. Conseguimos registrar o que nos chega, mas com toda certeza é muito subnotificado. As empresas não fornecem o número de infectados e afastados”, afirma.  Blaise Lempen, secretário geral da PEC, confirma a suspeita de Norian. “Para o Brasil, encontramos muitas informações nos buscadores. Em geral, a mídia local do país fornece informações sobre as

Jornalistas e a COVID no mundo

A The Press Emblem Campaign (PEC) foi fundada em junho de 2004 por um grupo de jornalistas de vários países, com sede em Genebra, para fortalecer a proteção jurídica e a segurança de jornalistas em zonas de conflito e agitação civil, ou em missões perigosas. Na pandemia de COVID-19, além do levantamento das mortes, apoia, quando necessário, pedidos de auxílio financeiro a familiares de jornalistas falecidos e também compartilha a opinião de que os profissionais da mídia devem ter acesso prioritário à imunização.

“Por causa de sua profissão, os jornalistas que vão a campo para testemunhar estão particularmente expostos ao vírus. Alguns deles, especialmente freelancers e fotógrafos, não podem trabalhar apenas de casa”, disse o secretário-geral, Blaise Lempen. Como argumento, destaca que a doença matou 60 jornalistas por mês, ou dois por dia em média. A América Latina lidera a lista (mais da metade dos números registrados até 5 de janeiro), seguida pela Ásia, Europa, América do Norte e África. A Itália é o país europeu mais enlutado, com 37 jornalistas mortos da Covid-19.

A PEC mantém também uma página com o registro do nome acompanhado de pequena biografia e foto (quando possível) dos jornalistas mortos no mundo.
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causas da morte de jornalistas. No entanto, o pedágio real entre os funcionários da mídia é certamente maior”, disse.

 O abandono da categoria nessa pandemia já havia sido apontado em abril, pelo estudo Como trabalham os comunicadores em tempos de pandemia da Covid-19?, realizado pelo Centro de Pesquisa Comunicação & Trabalho (CPCT) Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). “(Temos) um quadro bastante dramático no mundo do trabalho dos comunicadores: demissões, contratos precários, rebaixamento salarial, densificação do trabalho, todo tipo de estresse, além do quadro de incertezas sobre o futuro”, pondera Roseli Figaro, coordenadora da pesquisa, que entrevistou 556 comunicadores em todo o país de maneira remota entre os dias 5 e 30 de abril. Roseli diz que o setor já vivia uma crise profunda, que se tornou visível e ainda pior com a pandemia.

  O médico sanitarista Gonzalo Vecina,  defensor tenaz do SUS, ex-secretário municipal de Saúde de São Paulo e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e também professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), tem garantido nos últimos dias que o Brasil consegue vacinar toda a população até o final do ano, apenas com a produção do Butantã e da Fiocruz. “A vacina do Butantã e a vacina da Fiocruz, juntas, oferecerão ao país 350 milhões de doses neste ano, volume suficiente para vacinar com duas doses 160 milhões de brasileiros - todos com mais de 18 anos que serão o alvo desta vacinação”, disse em entrevistas para praticamente todos os jornais e também, em rádio e TV.

  Separamos um trecho de uma dessas entrevistas, para o Programa Tertulias, do canal TV Democracia, comandado por Fábio Pannunzio no Youtube, de que participa o também médico sanitarista Claudio Maierovitch. Gonzalo explica de forma didática, como deve ser a logística da vacinação e alerta para os riscos que corremos diante da inoperância do Ministério da Saúde. “Tão desastroso quanto vender dose de vacina a 2 mil reais, seria ter o governo de São Paulo vacinando os paulistas independente do restante do país. Isso seria um desastre”, afirma. No limite da inação do MS, Gonzalo sugere que os 27 governadores assumam o Plano de Vacinação em bloco, excluindo o governo federal do processo.  

Da para vacinar todo mundo esse ano

 Esse quadro dramático não é uma exclusividade do Brasil. A primeira pesquisa global em grande escala sobre impacto da COVID-19 envolvendo a atividade em todo o mundo mostra que jornalistas e organizações de notícias enfrentam uma crise de saúde mental, perigo financeiro, ameaças à segurança física e ataques à liberdade de imprensa, ao mesmo tempo em que lutam contra níveis pandêmicos de desinformação. O Projeto Jornalismo e a Pandemia (Journalism and the Pandemic Project) é realizado pelo International Center for Journalists (ICFJ) em parceria com o Tow Center for Digital Journalism da Universidade da Columbia, desde o início da pandemia e pretende mapear os impactos da doença. Já entrevistou mais de 1.400 jornalistas falantes de inglês de 125 países e o primeiro release divulgado define as primeiras 30 descobertas como “surpreendentes e perturbadoras”. (Clique aqui para ler mais e baixar o relatório da pesquisa)

A Fenaj também fez uma pesquisa sobre condições de trabalho dos jornalistas durante a pandemia, que entrevistou 457 jornalistas entre os dias 20 de maio de 10 de junho de 2020. Descobriu que 75,2% conseguiram trabalhar a partir de casa, o que aumenta a gravidade do número de mortes registradas entre a categoria pelo levantamento da PEC. A pesquisa confirma a falta de informação promovida pelas direções das empresas com relação ao número de funcionários contagiados: apenas 68 pessoas responderam a essa questão e desses, um terço não sabia dizer se houve casos em seu local de trabalho. (Baixe o relatório completo)