Pandemia

11 de maio de 2020

Entrevista - Luci Praun

As dores e os horizontes do mercado de trabalho

A socióloga Luci Praun, pesquisadora do grupo de pesquisa Mundo do Trabalho, da Unicamp, e professora na Universidade Federal do Acre, fala nessa entrevista sobre as dores e os horizontes do mercado de trabalho nascidos com a pandemia de coronavírus. “Não vai ser bom”, avisa. Mas ressalva: "No meio dessa confusão toda, tem ofensiva contra o trabalho, mas tem também resistência". Luci estuda as transformações na organização do trabalho e acompanhou de perto a reestruturação produtiva da Volkswagen nos anos de 1990. Leia abaixo o que ela diz sobre o movimento sindical, o avanço neoliberal e a luta por direitos

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LILIAN PRIMI

Há uma onda forte de perda de direitos, que começou antes da pandemia, mas foi muito intensificada agora, nessa crise. Você está acompanhando a ação dos sindicatos? Como evolui – ou piora – o problema da representatividade?

Luci Praun– Com relação aos sindicatos, primeiro é preciso dizer que sindicato é importante, certo. Por que às vezes, quando a gente passa a discutir as fragilidades do movimento sindical com relação a lidar com todas as mudanças que vem acontecendo no mundo do trabalho, quem escuta a conversa no meio do caminho tem a impressão de que estamos dizendo que o sindicato não serve prá nada etc. Pelo contrário. É imprescindível. As críticas construtivas vão em outro sentido, de que não dá mais para os sindicatos operarem numa lógica de quando prevalecia o padrão de acumulação capitalista baseado no taylorismo-fordismo: Uma forma de configuração do mercado de trabalho, na qual boa parte dos trabalhadores estava vinculada a uma categoria, e se reuniam em um local de trabalho determinado. Era muito evidente onde estavam os metalúrgicos, os borracheiros, os químicos, os professores, a categoria dos servidores públicos, que é bastante diversa, mas no geral passou a ter, depois da constituição de 1988, também uma organização sindical que aglutinava os servidores.  Isso mudou. Temos que considerar, obviamente, que nem todo mundo do mercado de trabalho brasileiro estava incorporado nessas categorias profissionais. Nos países periféricos a precarização do trabalho sempre foi algo muito próximo dos trabalhadores. Sempre tivemos um contingente muito grande de trabalhadores submetidos à informalidade, mas tínhamos uma parcela considerável de trabalhadores organizados em categorias, e categorias que eram relativamente homogêneas. Quem trabalhava numa fábrica metalúrgica era metalúrgico. Quem trabalhava no banco era bancário. Esse processo mudou já faz alguns anos. Aqui no Brasil, em particular, com os processos de reestruturação produtiva e a ascensão do neoliberalismo, que têm que ser vistos juntos. A partir dos anos 1990 há uma metamorfose no mundo do trabalho. O mercado é muito mais fragmentado do que era antes, o que levou alguns autores a dizerem, equivocadamente, que o trabalho perdeu sua centralidade. Surgiram discussões desse tipo. A pandemia inclusive, com toda a precariedade que ela dá expressão, deixa muito clara essa centralidade do trabalho, evidenciando-a. Não deixa de ser central, mas a configuração da classe trabalhadora mudou e grande parte dos sindicatos não incorporou essas mudanças.

 

Queria que você falasse, aqui, da sindicalização, que foi abandonada pelas direções. E também sobre o fato dos sindicatos não ampliarem a sua representação também para os informais, que tem se organizado na forma de coletivos. Os coletivos são a representação do futuro? Ou os sindicatos vão conseguir absorver as mudanças? A pandemia ajuda nisso?

Luci - Acho que uma coisa não está em oposição à outra. Creio que vamos assistir aos dois processos. Por um lado, a organização de coletivos, de luta de trabalhadores que não se veem amparados em nenhum lugar e, portanto, pela própria necessidade, vão começar a criar seus organismos de luta, e isso não é ruim, isso é bom. As pessoas não podem ficar esperando que os dirigentes sindicais olhem para elas. A gente está vendo a mobilização do pessoal do chamado trabalho uberizado, que cada vez mais corre por fora dos sindicatos tradicionais. E, por outro lado, há um segmento do movimento sindical que imagino que vá se sensibilizar, ou já está se sensibilizando, com essa necessidade de olhar para o mundo do trabalho a partir de uma perspectiva não tão nova, enxergar o que está acontecendo, e se colocar a serviço disso, de organizar essa classe trabalhadora para que a gente possa fazer frente aos ataques aos direitos, que são cotidianos. É impressionante! Para mim não é uma coisa ou outra. O próprio surgimento de organizações alternativas pode servir como elemento que pressione as atuais organizações a mudarem a rota da sua política sindical, e pressione também no sentido de uma desburocratização. A impressão que dá quando a gente observa algumas entidades sindicais, não todas, mas uma parte significativa delas, é de que estão distantes da realidade das pessoas. Você falava da sindicalização. A sindicalização nos anos 80, como tinha a ver com uma década de muita luta do movimento sindical brasileiro, ela era encarada como uma obrigação, algo

fundamental para a vida do sindicato, sindicalizar. Porque sindicalizar não era só fonte de receita, era uma forma de mobilização. A ideia de ser sindicalizada trazia consigo um debate de natureza política, de ser sindicalizado, de pertencer a uma organização sindical. Isso se perdeu.

 

Em que momento se perdeu esse sentido?

Luci - Se fosse rapidamente falar sobre isso, a gente vive no final das décadas de 70 para os anos 80 uma retomada do movimento sindical combativo. A CUT inclusive é uma expressão disso. A fundação de uma central única dos trabalhadores no início da década de 80, que aglutina uma série de oposições sindicais, a luta contra o peleguismo. Cheguei a participar ativamente disso nessa época, como trabalhadora. Fui no primeiro congresso da Central Única dos Trabalhadores, fui da oposição bancária do ABC, da oposição metalúrgica em São Paulo. Enfim, participei ativamente desse processo. Era um processo riquíssimo! E democrático. O primeiro congresso da CUT é um negócio lindo, com uma representação de base enorme, com aquele monte de oposições sindicais ali, participando junto e com um projeto de sindicato que era um projeto de sindicato de luta. Esse processo vai ganhando novos contornos no final dos anos 1990. E no início dos anos 1990, o marco - não sou eu que estou dando, outros pesquisadores demarcam e eu concordo -, é uma coisa chamada câmaras setoriais. Elas inauguram uma prática sindical de negociar os processos de reestruturação produtiva, as mudanças que ocorrem no mundo do trabalho, com a justificativa de que isso preservaria os postos de trabalho, e isso não aconteceu. E junto disso temos vários outros fenômenos. Um projeto eleitoral muito consolidado. Começa a se consolidar a ideia de que era possível chegar ao poder pela via eleitoral e, portanto, é preciso amenizar o discurso para poder chegar ao poder e se eleger. Claramente um setor majoritário do Partido dos Trabalhadores encampa esse discurso e isso vira o principal objetivo. Para ganhar a eleição, precisa ter um discurso palatável, não pode ser o discurso da radicalização. Obviamente tem vários outros fatores, a expansão do neoliberalismo...

 

Nesse ponto, gostaria que você falasse sobre as estratégias de luta, que também devem mudar. Os trabalhadores passaram a ser tratados como parceiros – “colaboradores”, não mais empregados ou funcionários -, sob o incentivo de bônus e participações nos lucros mediante o cumprimento de metas. Isso atingiu diretamente a greve, a possibilidade de parar a produção, que é a principal estratégia de luta da classe.

Luci - Sim, quando a gente fala de ascensão do neoliberalismo, a gente está falando de um processo que é econômico, que é político, e que também opera na esfera da disputa ideológica. Não tem como separar essas coisas. E nesse campo da disputa ideológica, uma parte do movimento sindical comprou o discurso. O discurso é muito forte e uma parte comprou a ideia de ser cogestor da empresa privada. De convencer o trabalhador de que teria mesmo que aceitar medidas de precarização do trabalho em nome de manter aquele posto de trabalho, o que não se confirmou depois, etc. O ataque do ponto de vista ideológico dos setores patronais nesse período é violento. Estudei o processo de reestruturação produtiva do Volkswagen, que começou nos anos de 1990. Pesquisei jornais que a Volks produzia para os trabalhadores, que chamava-se O Parceiro. Nome bem sugestivo do ponto de vista do que se queria. O que se queria era quebrar a identidade de classe. De certa forma, esse projeto de quebrar a identidade de classe é vitorioso. Claro que não é uma vitória definitiva, porque a gente está falando de uma história que é movimento, de um processo histórico que pressupõe luta de classes, que pressupõe as pessoas em choque com a realidade. Mas foi muito interessante, na época da pesquisa, conversar com os trabalhadores - e a Volks fez muitas iniciativas dentro da empresa para conquistar as mentes desses trabalhadores para o seu projeto de reestruturação – uma parte deles estava empolgada com a ideia de que tinha de vestir a camisa da empresa, porque se aquela empresa não estivesse bem no mercado isso repercutiria mal para aquele trabalhador. Então, o trabalhador da Volks tinha que estar em luta contra a Fiat ou outra automobilística, porque a posição da empresa no mercado era como se fosse a posição dele, pessoalmente. Isso foi muito

disseminado na época não só no setor fabril, mas em todos os setores da sociedade.

 

Nesse momento que estamos, em que a preservação da vida depende de um grupo de trabalhadores de aplicativos, que já vivem na precarização absoluta da “empresa de si mesmo”, como é a luta pela preservação de direitos? Como vai ser esse mercado de trabalho no pós-pandemia? Temos novas perspectivas?

Luci - Difícil ter a dimensão do que vai ser esse mundo pós-pandemia. Temos pistas sobre isso. Diria que as perspectivas não são boas do ponto de vista do mercado de trabalho. De uma maior percarização, crescimento enorme da ideia de home office, o fim do posto de trabalho para muitos trabalhadores. Já falava da questão da pulverização, mas te daria um exemplo antes, que é importante para pensar isso. A companhia de eletricidade de São Paulo está fazendo uma ampla campanha para que a gente fotografe o relógio de luz, mande a foto da marcação para eles, para que possam contabilizar o valor da conta, e que a gente também se cadastre no email para receber a conta de forma digital. O discurso que move essa ação é o de que “precisamos proteger nossos trabalhadores contra a contaminação por covid-19: eles não terão que ir até sua casa fazer a leitura, nem para entregar a conta, portanto, estarão protegidos”. Alguém acredita nisso? Alguns estão acreditando. Para mim está muito claro que pós-pandemia, parte importante desses trabalhadores perderá o emprego para sempre. Por que se jogou para o consumidor parte do trabalho que antes era feito por um trabalhador. Agora é o consumidor que trabalha para a empresa de energia privada, de graça.

 

Isso acontece de forma intensa nos bancos, e se vê de forma muito clara no pagamento dos auxílios emergenciais da Caixa. Muita gente está sem dinheiro porque não consegue operar os aplicativos e não há um canal de atendimento humano, para orientação...

Luci - É, as filas enormes são a expressão da quantidade de demissões que os bancos fizeram.

 

​... Nos ônibus

Luci - É nos ônibus também. Enfim, então a primeira coisa que se desenha, ensino à distância e todos esses mecanismos que estão sendo testados na onda da epidemia, não é algo bom. Mas por outro lado, não é possível olhar a realidade como se fosse algo linear. Na mesma medida em que se desenha esse horizonte que não é dos melhores, também se desenha a possibilidade da experiência das pessoas com as suas ilusões. O choque entre a realidade concreta que a gente vive todo dia e as ilusões que a gente constrói muitas vezes na cabeça, que são as ideologias que a gente incorpora. Esse enfrentamento é muito interessante. Ontem tinha mobilização de trabalhadores da saúde por Equipamentos de Proteção Individual. Eles estão submetidos a condições de trabalho precárias. Entregadores de comida também se mobilizando, preocupados com a saúde e com o futuro deles. No meio dessa confusão toda, tem ofensiva contra o trabalho, mas tem também resistência.

 

O movimento dos coletivos na Europa perdeu força e mesmo agora, nessa crise, não aparece muito, talvez por conta do isolamento social e quarentenas. Como seria a resistência em meio à pandemia?

Luci - A pandemia coloca a gente numa baita contradição. Por um lado, o que seria o ideal nessa situação (dos trabalhadores da saúde)? Era chamar todo mundo para ir para a rua. Só que não pode. Se faz isso está indo em confronto com um discurso científico, que a gente acredita e que faz sentido, que não é nenhuma mentira, do real risco de um caos social. O que aliás, já está começando a se viver no país.

 

E tem as cenas dos cemitérios...

Luci - Pois é. E a capacidade de reação nossa nesses dias está limitada à internet, que tem um alcance restrito. É importante usar, mas tem alcance restrito. A quarentena impõe desafios também para a mobilização, aos sindicatos, à militância em geral contra esses ataques todos. O que começa agora, estou começando a receber mensagens nesse sentido, é que estão criando uma brigada no Acre para as famílias que estão passando necessidade. É uma ação de uma entidade sindical. Então começa a ter mobilização nesse sentido, mas no início as pessoas ficaram meio que sem saber o que fazer.

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Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (DIESAT)

Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Faculdade de Direito da USP

Produção executiva

Instituto Macuco (www.institutomacuco.com.br)