Pandemia

23 de maio de 2020

Ora direis, ouvir estrelas

Uma luz atravessou o céu de São Paulo na madrugada de ontem, provocando uma enxurrada de mensagens e ligações para o astrônomo Julio Lobo, divulgador científico do Observatório Municipal de Campinas Jean Nicolini. Instalado no Pico das Cabras, no distrito de Joaquim Egídio (SP), o Observatório foi o principal programa dos finais de tarde e noite de domingo de muitas gerações e Julio, à frente das seções de observação abertas ao público há 40 anos, foi guia dos primeiros passos na ciência de muita gente. “A quarentena está fazendo as pessoas ficarem mais sensíveis e como ficam em casa, estão observando mais o céu. Tenho recebido muitas mensagens pedindo informação”, conta.

Há um boom de notícias de aparecimento de discos voadores e OVNIs, que para Júlio, é resultado dessa sensibilização aparente das pessoas para o que acontece sobre nossas cabeças. “São coisas corriqueiras, mas para quem não está acostumado fica pensando que é disco voador”, argumenta. A luz na noite paulistana, que foi filmada e postada no twiter, não era disco voador, mas a ISS, a Estação Espacial Internacional (em inglês International Space Station) percorrendo sua órbita. “Ela passa como a estrela D’Alva”, ensina.  

Outro engano frequente ocorre com os lançamentos dos satélites starlynks, da Space X, do bilionário Elon Musk. Já foram lançadas sete frotas de 60 minissatélites cada uma, que atravessam o horizonte como pequenos pontos brilhantes no início da noite. A última passagem foi vista no dia 11 de maio e a próxima será em três de junho.Júlio garante que, apesar do aumento sistemático e constante da intensidade da luz emitida pelas grandes cidades, é possível observar as estrelas sem o uso de equipamentos além do olho. "Podemos ver as mais brilhantes”, diz. Como as Três Marias e o Cruzeiro do Sul. A tentativa pode ser um exercício poético, capaz de iluminar e oxigenar a mente depois de uma semana intensa, e nos fortalecer para o que nos espera na próxima. Júlio dá um roteiro básico: “Logo ao anoitecer, se olhar para onde o

sol se põe, vai ver três estrelas brilhantes logo acima das Três Marias, visíveis até às 19 horas. A Sírius, no centro, Canopus, à esquerda e Procyon, à direita. À esquerda da Canapus, tem o Cruzeiro do Sul, que em São Paulo não pode ser visto inteiro. Apenas três estrelas. Abaixo dele, duas estrelas: a alfa e a beta do Centauro.”

As imagens que ilustram essa página são do céu ao longo de hoje e também o que estará por traz das nuvens essa noite, às 23h19. Foram gerados por plataformas online indicados por Júlio para quem quer dar os primeiros passos na observação. O Heavens oferece um mapa interativo a partir da inserção de coordenadas geográficas com possibilidade de escolher as informações inseridas, como nome de estrelas, de constelação e de planetas. O site oferece várias outras informações astronômicas, incluindo visualizações dinâmicas de satélites, como a frota starlynk, e uma agenda de eventos e indicação de quando estarão mais visíveis.

O Stellarium é um planetário de código aberto. Mostra o céu em três dimensões como se vê a olho nu, com binóculos ou telescópio e permite a inclusão de informações a respeito das constelações usando arte (desenho) ou vetores, das condições da atmosfera e por espectro de luz noturna; tudo isso com ou sem a linha do horizonte. Bom para brincar em noites nubladas.

A observação do entorno é uma forma ancestral de aprendizado humano e está na base da observação astronômica. Marcio D’Olne Campos, físico e etnoastrônomo, fundou e dirigiu, no final dos anos de 1980, o Laboratório a Olho Nu Aldebaran, inspirado nas aldeias indígenas circulares, em monumentos megalíticos pré-históricos como Stonehenge, na Inglaterra, no observatório de Jaipur, na índia e nas construções com alinhamento astronômico das antigas civilizações do México, do Peru e da Guatemala. Foi instalado no campus da Unicamp em 1986 e funcionou até 1995
(Leia mais aqui).

Hoje suas instalações abrigam o Museu Exploratório de Ciências, que promove exposições acompanhadas por observações celestes periódicas e abertas ao público.  Márcio deu aulas na Unirio depois de sair da Unicamp, e hoje milita pelo SULear, um movimento que se contrapõe ao uso de coordenadas NORteadas pela ótica de quem vive no Hemisfério Norte.

O observatório que construiu no campus da Unicamp em Barão Geraldo, distrito de Campinas, repetia a configuração das aldeias – circulares, com um caminho no meio ligando a entrada, no nascente, e a saída, no poente: Um relógio natural de sol, que ajuda a estabelecer uma referência para a observação. Mário ensinava que a partir disso, os índios ligavam os movimentos do céu ao meio ambiente para poder definir a época certa dos rituais, ou prever a chegada das chuvas.  A forma de aprendizado indígena norteou o trabalho do professor durante esses anos, que usava a observação do céu como ferramenta de ensino.

Aprendendo
com as estrelas

Falando com Paulo Freire: 
uma conversa de Marcio D’Olne Campos com Paulo Freire, publicada em 1990 no periódico UNESCO Currier, sobre aprendizado. (original em inglês)  

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PARA MAIS ORIENTAÇÕES: Visite o instagram de Julio Lobo

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