Pandemia

19 de maio de 2020

Mais um frigorífico da JBS é interditado por surto de covid-19

Auditores-fiscais do trabalho fecharam a fábrica da Seara/JBS de Ipumirim, em Santa Catarina. Antes, em abril, um surto de covid-19 fechou a planta do grupo em Passo Fundo,
no Rio Grande do Sul

LILIAN PRIMI

 A Superintendência Regional do Trabalho, ligada ao Ministério da Economia, interditou ontem o frigorífico de aves da Seara Alimentos da cidade de Ipumirim, Santa Catarina, do grupo JBS, por conta do alto risco de contaminação pelo coronavirus na linha de produção da empresa. Dos 1,5 mil funcionários, 87 estão contaminados, o que caracteriza um surto de covid-19. A planta processa 135 mil aves, operação que envolve 240 produtores rurais da região.

 A interdição aconteceu depois de uma fiscalização da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho, quando foram encontradas irregularidades graves, “sobretudo relacionadas à ausência de distanciamento seguro entre os trabalhadores na linha de produção e à inexistência de medidas de vigilância para controle da disseminação do vírus entre os trabalhadores”.  Em nota divulgada ontem, a empresa diz que vai recorrer na justiça para reabrir a fábrica e nega as ocorrências.

 Essa é a segunda empresa da JBS interditada por surto de covid-19 no Brasil. A primeira aconteceu no dia 24 de abril, na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. (leia mais aqui). De acordo com números coletados e apurados pela Secretaria Estadual de Saúde, o frigorífico tinha, na época, 20 empregados confirmados com COVID-19, três contatos próximos contaminados, quinze empregados com suspeita e quatro contatos próximos confirmados com o vírus. Até agora, dois parentes próximos faleceram por COVID-19. O frigorífico possui 2.625 funcionários.

Há ainda denúncias de situação de alto risco nos frigoríficos da Cooperativa Aurora (leia aqui), de Chapecó (SC), cidade que tem 636 casos confirmados, 167 suspeitos e duas mortes. Segundo a advogada trabalhista Maria Aparecida dos Santos, militante no movimento sindical da região há mais de 40 anos, no Rio Grande do Sul, onde há um acompanhamento mais efetivo da doença, a maioria dos contaminados é de trabalhadores em frigoríficos. “Sabemos que não existe a possibilidade de manter 1,5 metro de distância, principalmente na hora da troca de uniforme, quando a pessoa bate o crachá e em tantos minutos tem de estar na sua seção, já trabalhando”, afirma.

A JBS teve fábricas fechadas também nos Estados Unidos, por conta do registro de um surto na empresa e na comunidade do entorno. No dia 14 de abril, foi fechada temporariamente uma instalação de produção de carne bovina em Greeley, no Colorado, já reaberta. Dois dias depois, a empresa fechou temporariamente outra planta, também de carne bovina, em Souderton, na Pensilvânia. No dia 20 de abril, a fábrica de processamento de suínos do grupo em Worthington, Minnesota, foi fechada definitivamente. Essa planta empregava 2 mil trabalhadores, que processavam 20.000 porcos por dia. Ali foram registradas 19 contaminações por covid-19. A JBS opera mais de 60 instalações de carnes, aves e alimentos preparados nos Estados Unidos.

Ouça o relato da advogada 

Maria Aparecida dos Santos sobre a situação em Santa Catarina

FOTO: Reprodução

PARADA: entrada da Seara/JBS em Ipumirim

Frigoríficos tem alto potencial de contaminação

 Os frigoríficos são tidos como área de alto risco de contaminação por coronavirus no mundo todo, em virtude da forma como a produção está organizada – em linhas de produção com alto aproveitamento de espaço e ritmo acelerado. Na JBS de Ipumirin, os auditores-fiscais do Trabalho encontraram aglomerações de trabalhadores em vários setores de produção, especialmente na sala de corte e setor de evisceração/SIF, onde foram encontrados empregados trabalhando ombro a ombro, com distanciamento por vezes inferior a 50 cm. Há ainda negligência da empresa com relação às medidas de proteção, como o não afastamento de trabalhadores do grupo de risco, além de pessoas com sintomas gripais e com teste positivo para covid-19 (ou com medicação prescrita contra a doença), que eram mantidos trabalhando.

 Nos Estados Unidos, um 

relatório do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC na sigla em inglês) de morbidade e mortalidade por covid-19 registra casos de covid-19 em 115 instalações de processamento de carne ou aves em 19 estados no período de 9 a 27 de abril. Foram diagnosticados 4.913 trabalhadores com a doença (aproximadamente 3%), e 20 mortes.

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O portal Mealt+Poltry, publicado pela agência Sosland, voltada para a produção industrial, mantém um mapa que registra as interdições da indústria de carnes nos Estados Unidos.

CLIQUE NO MAPA PARA ABRIR

Entre as dificuldades para garantir a proteção desses trabalhadores apontadas pelos profissionais é justamente a dificuldade em distanciar os trabalhadores a pelo menos 2 metros um do outro e na implementação de diretrizes de desinfecção específicas do cofid-19. Entre os trabalhadores, o desafio é garantir que parem de trabalhar quando adoecem, principalmente se houver a adoção de práticas de gerenciamento, como bônus por produtividade. (leia artigo completo) (L.P.)

MPT e UFSC criam canal de telemedicina

 Aqui no Brasil, para ajudar a monitorar a situação nessas plantas, o MPT de Santa Catarina criou na semana passada, um canal de telemedicina especialmente voltado para quem trabalha nos frigoríficos. Desde o dia 12 de maio, o telefone (48) 99671-3784 e o e-mail ambulatoriosaudetrab@contato.ufsc.br agenda consultas virtuais, feitas pelo skipe, com os médicos do Ambulatório de Saúde do Trabalhador do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Vamos também fazer os testes dos três auditores-fiscais que estiveram na fábrica", explica a médica do trabalho Edna Maria Niero. Os auditores solicitaram também a realização de testes nos 1,5 mil funcionários. Os médicos vão acompanhar a situação de cada um, indicando quem deverá ser afastado ou que precisa ser internado.  O atendimento do ambulatório foi suspenso durante a pandemia, mas ela e o médico Cléber Gonçalves Jardim foram escalados para dar assistência aos trabalhadores dos frigoríficos, que já sofriam com o adoecimento no trabalho antes da pandemia por conta da forma como a produção está organizada. “Sempre tivemos muitos problemas de saúde entre os que trabalham nos frigoríficos. Eles sofrem principalmente com doenças músculos esqueléticas e do sistema nervoso. Agora, com a covid-19, a situação piorou muito”, diz Edna, que teme por uma explosão de casos da doença nas cidades onde estão instaladas as plantas. “É uma questão de tempo apenas”, diz.

A organização da linha de produção, que exige um número de movimentos por minuto desumano nas esteiras e o trabalho em ambiente refrigerado, com um número grande de trabalhadores, cria uma situação extremamente favorável para a disseminação da covid-19, além das doenças já comuns no setor. “Temos uma legislação e protocolos muito bons, mas que não são aplicados. No caso da JBS, interditada essa semana por exemplo, os fiscais relatam casos de funcionários com sintomas e também positivos para covid-19 que eram mantidos trabalhando. Isso é inaceitável”, ressalta a médica.

 Edna chama a atenção para a situação dos indígenas, que formam a maioria dos trabalhadores dessas empresas e que são fisicamente mais vulneráveis. “Embora estejam aculturados, eles mantém hábitos que dificultam o distanciamento. Vamos ter ampla contaminação nas aldeias dentro de pouco tempo”, prevê.

 O agendamento pode ser feito de segunda a sexta-feira, das 13h às 17h, e as consultas serão realizadas nas terças e quartas-feiras, das 08h às 12h e das 13h30 às 16h. Serão atendidos trabalhadores em frigoríficos que apresentem os sintomas da Covid-19, como tosse, febre, coriza, dor de garganta e dificuldade para respirar. O serviço tem caráter temporário e está disponível exclusivamente durante o período de maior incidência do coronavírus. (Leia mais aqui)

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Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Faculdade de Direito da USP

Produção executiva

Instituto Macuco (www.institutomacuco.com.br)