Pandemia

30 de maio de 2020

Plano de reabertura é prematuro, dizem pesquisadores

Contrariando as próprias regras, plano do governo do Estado de São Paulo segue critérios políticos para determinar diferenças de fase entre as cidades e irá provocar mais mortes e caos na saúde

logotranspmini.gif

COLETIVA: Bruno Covas, prefeito de São Paulo (segundo da esquerda para a direita) e João Dória, governador do Estado, ao lado.

LILIAN PRIMI

Usando dados do próprio governo, dois grupos de pesquisa - Portal Covid-19 Brasil e Ação Covid-19 -, que monitoram o avanço da pandemia no Brasil desde o início, mostram em nota técnica divulgada nesse sábado, que o governo mente e esconde números para conseguir justificar a reabertura do comércio no Estado. 

 Segundo os pesquisadores, oriundos de diversas universidades do País, essa é uma medida prematura, que não leva em conta nem mesmo as regras estabelecidas nela mesma. E alertam que, caso efetivada, nos custará o aumento de doentes e de mortos e o colapso total do sistema de saúde.

 Na realidade, a análise dos registros oficiais mostram que o número de casos está em ascensão e que ainda não se tem uma política de testagem clara, há ainda uma expansão do contágio no interior e um número ainda alarmante de ocupação de leitos. "O esforço de três meses de isolamento seria completamente desperdiçado, levando a uma perda desnecessária de vidas.", diz o professor Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade em Ribeirão Preto e membro do grupo Covid-19 Brasil.

GRÁFICO BLUMENAU x RIBEIRÃO PRETO

Os pesquisadores lembram a experiência de Blumenau, em Santa Catarina, para explicar o que pode acontecer aqui.  A prefeitura autorizou a reabertura do

comércio nas ruas e shopping centers com uma diferença de 9 dias e de forma prematura, para atender à pressão dos empresários locais.  “Entre o dia de reabertura, 13/04/20 e o dia 04/05/20, houve um crescimento de 244% dos casos, alertando para o que pode acontecer com um possível relaxamento do isolamento. Até o dia nove de maio, a cidade apresentava 339 casos e 1 óbito”, ressalta a nota.

A divisão do Estado em diferentes regiões, que primeiro foi apresentada como mostra o mapa e “ajustada” depois de uma grita geral dos prefeitos da grande São Paulo que receberam a cor vermelha, mais restritivas, também é criticada na nota. A diferença é que, enquanto os prefeitos querem ampliar o relaxamento, os pesquisadores dizem ser necessário ampliar as restrições.

“Os indicadores estabelecidos pelo governo do Estado não incorporam critérios de crescimento ou redução de seus valores para designar em qual fase a epidemia está naquela região. Dessa maneira, por exemplo, foi designado que Campinas, São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, juntamente com a cidade de São Paulo, recebessem a cor laranja, quando claramente, pelo aumento do número de casos, de internações e de óbitos que têm sido observados nesses municípios, eles deveriam estar na fase com a cor vermelha”.

Ainda mais estranho, nessa distribuição, é observar municípios como Araraquara, São Carlos, Barretos e Botucatu na fase amarela, quando na verdade a emergência da epidemia nesses municípios deveria colocá-los também na fase vermelha. Esse argumento fica claro ao se observar o gráfico, abaixo, onde comparamos os casos confirmados por 100 mil habitantes por dia, a partir da primeira confirmação, para vários municípios.

COMPARAÇÃO ENTRE CIDADES

É possível ver nesse gráfico que as dinâmicas da epidemia em todos os municípios apresentam um comportamento de crescimento dos casos. Mais importante ainda é observar que todos os municípios mantêm um comportamento de crescimento similar à cidade de São Paulo, quando essa cidade estava no 64º dia da epidemia (São Paulo se encontra a 94 dias com casos de Covid-19, enquanto a maioria dos municípios reporta casos de Covid-19 a no máximo 77 dias). 

O gráfico nos revela também algumas situações piores que a cidade de São Paulo. A cidade de Botucatu (que estaria na fase amarela segundo o “Plano”), no 64º dia da epidemia tem mais casos em número absolutos do que o 64º dia observado para a cidade de São Paulo. Araraquara apresenta uma dinâmica semelhante, pior que a dinâmica da cidade de São Paulo.

ARQUIVO DE NOTÍCIAS

MÍDIAS

27/março/2020

25/março/2020

25/março/2020

25/março/2020

25/março/2020

09/março/2020

03/março/2020
02/março/2020
21/fevereiro/2020
7/fevereiro/2020
27/janeiro/2020
29/dezembro/2019
11/dezembro/2019

Organização

Associação Brasileira de Advogados e Advogadas Sindicais (ABRAS)

Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (DIESAT)

Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Faculdade de Direito da USP

Produção executiva

Instituto Macuco (www.institutomacuco.com.br)