Pandemia

18 de agosto de 2021

Estudo aponta dificuldades de absorção de oxigênio dos músculos em pacientes com covid longa

Estudo inglês publicado esta semana descobriu que a origem de déficits cognitivos e cansaço extremo persistentes em pacientes que tiveram covid não está no pulmão, nem no coração

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1,5% 

das quase 700 mil  hospitalizações por covid ocorridas de janeiro a junho deste ano eram crianças e adolescentes entre menos  de 1 e 19 anos, ou

 9,7 mil 

crianças. Nos primeiros seis meses desse ano o Ministério da Saúde registrou

1500 

mortes de crianças e adolescentes, 50% a mais do que o registrado durante todo o ano passado. Os casos de SIM-P por covid somaram

1,2 mil

até 8 de agosto, com

74

mortes, uma letalidade de 6,1%. Entre todas as crianças infectadas, independentemente da severidade da doença,

1,8%

permanecem com sintomas como problemas de memórias, falta de concentração e cansaço por mais de 4 semanas

O estudo foi publicado essa semana no CHEST, jornal científico voltado para doenças pulmonares e respiratórias, e desenvolvido por um grupo de médicos do Hospital da Escola de Medicina de Yale, em New Havens, e de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos. O objetivo era descobrir as causas do que chamam de “baixa resistência ao esforço físico”, uma sequela persistente da COVID que em 20% dos infectados persiste por mais de quatro semanas e que até agora, não era possível explicar.

Foram selecionados 10 pacientes sem problemas cardíacos e avaliados por

meio de testes cardiopulmonares invasivos (iCPET) e os resultados, comparados com 10 controles pareados por idade e sexo. O estudo conclui que os músculos dos pacientes de COVID têm dificuldade em absorver o oxigênio do sangue, provocando a sensação de fraqueza e déficits cognitivos. Esse é o primeiro estudo a identificar uma causa para a persistência de determinados sintomas da doença, situação definida pelos médicos como COVID LONGA e que pode ocorrer mesmo naqueles que desenvolveram formas leves da doença, ou que fiquem assintomáticos.

COVID LONGA NAS CRIANÇAS

  O pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, membro do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), diz que esse estudo indica a possibilidade de forte subnotificação de casos de COVID longa em crianças. “Achavam que esses episódios de falta de memória e concentração persistentes eram resultado de uma supervalorização da doença, ou um sintoma psicossomático”, explica, antes de fazer um alerta. “Apesar da baixa incidência, gravidade e letalidade neste grupo da população, é preciso atenção e as escolas devem estar informadas e preparadas”, diz. Eduardo explica que uma série de fatores confundem os diagnósticos, levando a abordagens equivocadas do problema, com risco de transformar essas limitações de temporárias em definitivas. “Eles estão em lockdown, vivendo tensões novas, longe dos amigos, em que todos estão muito estressados e ansiosos”, afirma. Os primeiros países a notar que esses quadros poderiam ser sequelas da COVID e não uma somatização das dificuldades impostas pelo lockdown foram a Itália, Reino Unido e Suíça, que realizaram estudos a respeito. 
  Um deles, feito no Reino Unido, foi publicado na semana passada na revista científica Lancet e mostra que a maioria melhora em até 6 dias; 4,4% permanecem até quatro semanas com fadiga, dor de cabeça e perda de olfato principalmente e apenas 1,8% ficam com esses sintomas por mais de 4 semanas. Eduardo diz que ainda não há uma definição sobre quanto tempo os sintomas devem estar presentes para se configurar COVID longa. Para ele, e uma parte dos médicos e cientistas, até quatro semanas ainda se pode considerar como uma recuperação lenta apenas. “A COVID longa são casos em que os sintomas persistem por mais de quatro semanas”, afirma. Incluindo os que se contaminaram no início da pandemia, em março do ano passado, e ainda sofrem com limitações. Portanto, para ele a COVID longa afeta 1,8% das crianças que se contaminam. Para outro grupo, que considera COVID longa a persistência de sintomas por tempo maior que o ciclo do vírus (de 15 dias), a incidência seria de 4,4%. Em adultos essa incidência é de 20% (mais de quatro semanas) a 60% (mais de 15 dias). Há ainda outros dois estudos, desenvolvidos na Suíça e Itália, com resultados parecidos. “São estudos que acompanharam um número grande de crianças, mais de 1,7 mil, por aplicativo de celular. É tranquilizador saber que a incidência é baixa, mas apesar disso esse pequeno grupo precisa de atenção. É necessário que os pediatras identifiquem o problema rapidamente e que o atendimento envolva não apenas a família, mas a escola também, que deve ter uma abordagem mais cuidadosa da situação do aluno, respeitar o tempo da criança”, alerta. Eduardo avisa que não há tratamento específico para COVID longa. “Temos (como opção) apoio psicológico e acompanhamento. Hoje, diria que uma maior profilaxia é o melhor tratamento”, afirma o pediatra.

“SEREI CAPAZ DE SER UM BOM ALUNO DE NOVO?”

A importância do alerta de Eduardo fica

clara em relatos como o publicado pelo New York Times, que mostram a angústia de adolescentes diante de dificuldades de aprendizado que não tinham antes de adoecer, e da falta de respostas sobre quando estarão realmente curados. Como o de Will Grogan, de 15 anos, autor da pergunta acima. Infectado pelo coronavírus em outubro de 2020, no início deste ano ele ainda apresentava lapsos de memória, juntamente com fadiga e fortes dores nas pernas, que provocam constrangimento durante as aulas, já que ele era um excelente aluno antes da COVID. O jornal justificou a abordagem do problema com a explosão de casos da doença em crianças e adolescentes, que não podem ou não foram ainda vacinadas, em virtude da disseminação da variante Delta no país. 
Pesquisadores e pediatras americanos, como o pediatra brasileiro, também ressaltam que apesar da baixa incidência, é preciso atenção. “O impacto potencial é enorme”, disse ao jornal a Dra. Avindra Nath, chefe de infecções do sistema nervoso do Instituto Nacional de Doenças Neurológicas e Derrame do governo estadunidense. “Quero dizer, eles estão em seus anos de formação. Quando você começa a ficar para trás, é muito difícil porque as crianças também perdem a autoconfiança. É uma espiral descendente”, diz. Quase 4,2 milhões de jovens nos Estados Unidos tiveram COVID-19, de acordo com a Academia Americana de Pediatria. No Brasil, há uma dificuldade enorme em se obter dados consolidados de contaminação para essa faixa etária. 
Os Boletins Epidemiológicos do Ministério da Saúde destacam os óbitos: já são 2.500 jovens entre 10 e 19 anos mortos pela doença, 1,5 mil apenas nos primeiros seis meses deste ano, o que indica uma aceleração. E a cada duas semanas, publica um capítulo sobre a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) associada à COVID-19, doença grave e letal que ocorre entre duas a quatro semanas após a infecção. Até 7 de agosto o Boletim registrava 1,2 mil casos confirmados de SIM-P por COVID, 74 deles com morte, o que significa uma letalidade de 6,1%. Haviam ainda outros 269 casos suspeitos, e entre os confirmados, 125 permaneciam com os sintomas da doença.
O presidente do Departamento Científico de Imunizações da SBP, dr. Renato Kfouri, fez um levantamento das internações de crianças e adolescentes (faixa de menores de 1 até 19 anos) por COVID de janeiro a junho deste ano, com base nos dados do Ministério da Saúde: de um total de 696.530 hospitalizações registradas no país nesse período, 0,4% delas foram de menores de 1 ano de idade; 0,38%, entre 1 e 5 anos; e 0,63%, entre 6 e 19 anos; totalizando 1,4% do total, pouco mais de 9,7 mil pessoas. Como a COVID longa pode atingir também os assintomáticos, com esses destaques não é possível dimensionar o seu impacto real nessa população. Há ainda por aqui, a falta de testes e de monitoramento eficiente das variantes em circulação, o que piora muito o quadro. “Professores, pais e médicos devem se manter sensíveis ao problema”, reforça Eduardo. 

FONTES: Boletim Epidemiológico Especial do Ministério da Saúde e SBP